Textos para as aulas

C.E.C.B Proposta de redação para 13/06/2013

Proposta de redação: O limite da ciência

“O cientista virou um mito. E todo mito é perigoso, porque ele induz o comportamento e inibe o pensamento. Este é um dos resultados engraçados (e trágicos) da ciência. Se existe uma classe especializada em pensar de maneira correta (os cientistas), os outros indivíduos são liberados da obrigação de pensar e podem simplesmente fazer o que os cientistas mandam. Quando o médico lhe dá uma receita, você faz perguntas? Sabe como os medicamentos funcionam? Será que você se pergunta se o médico sabe como os medicamentos funcionam? Ele manda, a gente compra e toma. Não pensamos. Obedecemos. Não precisamos pensar, porque acreditamos que há indivíduos especializados e competentes em pensar. Pagamos para que ele pense por nós. E depois ainda dizem por aí que vivemos em uma civilização científica… O que eu disse dos médicos você pode aplicar a tudo. […] Afinal de contas, para que serve a nossa cabeça? Ainda podemos pensar? Adianta pensar?”.

ALVES, Rubem. Filosofia da Ciência.

São Paulo, Ars Poética, 1996:8-9

 

“O que as pessoas comuns pensam quando as palavras “Ciência” ou “cientista” são mencionadas? Faça você mesmo um exercício. Feche os olhos e veja que imagens vêm à sua mente. As imagens mais comuns são as seguintes: o gênio louco, que inventa coisas fantásticas; o tipo excêntrico, ex-cêntrico, fora do centro, manso, distraído; o indivíduo que pensa o tempo todo sobre fórmulas incompreensíveis ao comum dos mortais; alguém que fala com autoridade, que sabe sobre o que está falando, a quem os outros devem ouvir e… Obedecer. Estas são as imagens da ciência e do cientista que aparecem na televisão. Os agentes de propaganda não são bobos. Se usam tais imagens é porque sabem que elas são eficientes para desencadear decisões e comportamentos.

Agora invoco Rubem Alves, no seu livro Filosofia da Ciência que diz: “O cientista virou um mito. E todo mito é perigoso, porque induz o comportamento e inibe o pensamento”. Antes de tudo, é necessário acabar com o mito e que o cientista é uma pessoa que pensa melhor que as outras. Antes de me adentrar mais nesse terreno “pantanoso” onde está à filosofia da ciência, se faz necessário saber o que é ciência? Você sabe o que é ciência? E as suas regras? Peço licença para citar dois grandes filósofos da ciência.

Primeiro Thomas Kuhn no seu livro “A estrutura das revoluções científicas”, considera a ciência como: “Uma quebra de paradigmas, que partindo de um modelo lançamo-nos na busca das peças do quebra-cabeça que o confirmarão, ou seja, cria-se um modelo teórico, uma forma hipotética do real (ex: teoria), não visto e não comprovado, mas que o cientista toma, por um ato de fé, como se fosse a verdade. E é a partir disso que ela irá investigar o real, em busca dos pedaços que estão faltando para completar o quebra-cabeça”. Agora segundo Karl Popper no seu livro “A lógica da investigação científica” que define ciência de uma maneira bem curiosa que assim se segue: “Se aceita como ciência ou como credencial de qualquer teoria, sua capacidade de “ser testada pela experiência” (um método) sendo que os únicos testes possíveis são aqueles que, eventualmente, podem demonstrar a falsidade de seus enunciados”. Note que não se quer dizer que uma teoria só pode ser considerada científica se for provada falsa. Ao contrário: se uma teoria não puder se provada falsa, eventualmente, isso significa que ela não pode se corrigida pela experiência.

Lembre-se de algumas “verdades” que foram abandonadas… Ex: As harmonias de Kepler, as sínteses químicas só realizáveis por organismos… O sol girando em torno da terra… E se Copérnico e Galileu não tivesse tomado ciência de tentar falsear tal afirmação através de observações e pesquisas… Resumindo, a credencial de qualquer declaração, para que ela tenha entrada no submundo da ciência, é sua falsificabilidade, porque não há métodos que nos permitam concluir acerca de sua verdade de forma definitiva.

Uma contraprova apenas, entretanto, basta, para nos mostrar outra face. Concordando com Nietzsche que dizia que “As convicções são prisões” invoco novamente Rubem Alves que diz que: “Todos que têm certezas estão condenados ao dogmatismo. Já que estou certo da verdade de minha teoria, por que haveria de perder tempo ouvindo outra pessoa que, por defender idéias, tem de estar errada? As certezas andam sempre de mãos dadas com as fogueiras…”.

Através disso, pretendo dizer que quem trabalha com ciência de maneira consciente seja em qualquer área, sabe que para tal não há verdades absolutas, caso pense o contrário entenda que isso não é ciência, é pseudociência. O cientista, o pesquisador, nunca pode pretender ser o dono da verdade. E o professor, por sua vez, é aquele que desmantela certezas.

(*) Rogério Ribeiro dos Santos é professor de Ciências/Biologia da rede estadual de ensino – E-mail: rogerbioufmt@yahoo.com.br

http://www.atribunamt.com.br/?p=15800&print=1

“Ao mesmo tempo, a ciência não pode ser considerada uma verdade absoluta, há que se impor limites para que não haja atrocidades como os experimentos “médicos” na Segunda Guerra Mundial, em que os nazistas usavam seus prisioneiros para experiências dantescas. O mais maléfico dos “médicos” foi Josef Mengele (que morou anos no Brasil até morrer afogado na região da praia de Bertioga, litoral paulista), que em Auschwitz fez barbaridades com gêmeos e liliputianos, e crueldades inimagináveis, como injeções no olho sem anestesia para tentar mudar a cor, esterilizações, contaminação com agentes causadores de doenças, amputações desnecessárias e retirada de órgãos. A ciência é feita para buscar soluções inteligentes e éticas.” (aconselho a acessar o link e ler mais)

http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=2494

 

 

 

Os jovens que não sejam completamente frívolos estão preparados para descobrir que, no mundo de hoje, os seus impulsos de boa vontade fracassam na procura de uma qualquer linha de acção que possa diminuir os perigos do tempo presente. Não vou pretender que há uma resposta simples ou fácil para a sua desilusão, mas penso que uma educação adequada poderia fazer com que esses jovens se sentissem mais capazes de perceber os problemas e de, criticamente, julgar esta ou aquela solução sugerida.

Há inúmeras razões que tornam os nossos problemas difíceis de resolver, senão mesmo de entender. A primeira diz respeito ao facto de a sociedade e a política modernas serem governadas por capacidades difíceis que poucas pessoas entendem. 

O homem da ciência é o moderno curandeiro. Pode fazer todo o tipo de magia. Pode dizer “Faça-se luz” e a luz aparece. Pode aquecer-nos no Inverno e, no Verão, manter fresca a nossa comida. Pode transportar-nos através do ar, tão depressa como um tapete mágico das “1001 noites”. Promete exterminar os inimigos em poucos segundos e só nos desaponta quando lhe pedimos para prometer que os nossos inimigos não nos irão exterminar. Tudo isto é conseguido por meios que só para uma pessoa num milhão não aparecem como completamente misteriosos. E quando os místicos nos contarem histórias de maravilhas futuras, não saberemos dizer se é possível ou não acreditar.

http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/cadernos/futuro/educ%20%20mundo%20dificil.pdf

 

 

Com base nas idéias sugeridas acima, redija um texto dissertativo-argumentativo, utilizando informações e argumentos que dêem consistência a seu ponto de vista a respeito de qual é o limite da ciência.

 

Procure seguir estas instruções:

- Lembre-se de que a situação de produção de seu texto requer o uso da modalidade escrita culta da língua portuguesa.

- Dê um título para sua redação, que deverá ter entre 20 e 30 linhas.

C.E.A.H Texto para a aula de 6/5/2013

Felicidade clandestina - Clarice Lispector

 

 

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme; enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.

Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.

No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!

E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

                 

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.

Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

 

 

Estrutura do Parágrafo: Estratégias de Escrita e Leitura 9/3/2013

Responda estas perguntas a partir do texto que se lhes segue:

1.1. O texto I, que mostraremos logo a seguir, é composto por quatro parágrafos, que dividem em blocos lógicos as informações apresentadas e facilitam a leitura. Para que um texto seja interpretado e compreendido de forma satisfatória, é importante que o leitor seja capaz de, ao final da leitura de cada parágrafo, abstrair sua ideia geral, em torno da qual as demais se articulam. Vamos treinar fazer isso? Veja, então, os desafios que formulamos:

a)Formule quatro frases que resumam de forma satisfatória cada um dos quatro parágrafos apresentados no texto I.

b)Indique como esses parágrafos se relacionam entre si, isto é, se introduzem um exemplo do que foi dito antes, um contraste, uma comparação, uma causa etc.

 

1.2. Levando em consideração o gênero discursivo e o canal (a Internet) em que foi divulgado o texto I, comente a extensão e a delimitação de seus parágrafos.

Texto I

Educação e Tecnologia: uma aliança necessária (adaptado)

Juracy dos Anjos

Entendidas por especialistas e educadores como ferramentas essenciais e indispensáveis na era da comunicação, as novas tecnologias ganham espaço efetivo nas salas de aula. Computadores ligados à internet, software de criação de sites, televisão a cabo, sistema de rádio e jogos eletrônicos. Estas são algumas das possibilidades existentes e que podem ser aproveitadas no ambiente escolar como instrumentos facilitadores do aprendizado.

Entretanto, apesar de muitas escolas possuírem estas tecnologias, as mesmas não são utilizadas como deveriam, ficando muitas vezes trancadas em salas isoladas e longe do manuseio de alunos e professores. Existem, segundo estudos recentes, professores e escolas que não conseguem interligar estes instrumentos às atividades regulares.

De acordo com o pedagogo Arnaud Soares de Lima Júnior, “o acesso às redes digitais de comunicação e informação é importante para o funcionamento e o desenvolvimento de qualquer instituição social, especialmente para a educação, que lida diretamente com a formação humana”. No entanto, ele ressalta que os modos de viver e de pensar a organização da vida estão em crise. Está em curso uma mudança qualitativa, em virtude da rápida transmissão de informações entre as sociedades, rompendo, com isso, as barreiras geográficas dos países.

“Por isso, cabe à educação uma parcela de responsabilidade tanto na compreensão crítica do(s) significado(s) desta transformação, quanto na formação dos indivíduos e grupos sociais. Estes devem assumir com responsabilidade a condução social de tal virada, provocada, entre outros fatores, pela revolução nas dinâmicas sociais de comunicação e de processamento de informação”, analisa Arnaud.

Respostas Comentadas

1.1.

a. 1º parágrafo – As novas tecnologias tornam-se cada vez mais importantes nas salas de aula, dado seu papel preponderante na era da comunicação.

2º parágrafo – Apesar de muitas escolas possuírem as novas tecnologias, estas são subutilizadas.

3º parágrafo – O acesso às redes digitais de comunicação e informação é importante para o funcionamento e o desenvolvimento de qualquer instituição social, especialmente para a educação, apesar das mudanças radicais que as sociedades vêm sofrendo.

4º parágrafo – A educação deve estimular a compreensão crítica do(s) significado(s) desta transformação e seu impacto na formação dos indivíduos e grupos sociais.

b. O segundo parágrafo introduz uma oposição ao primeiro, na medida em que diz não serem usadas em algumas escolas as tão importantes tecnologias vistas no parágrafo anterior. Já o terceiro parágrafo ratifica as informações do primeiro, por meio da citação de uma autoridade. Por fim, o último parágrafo estabelece uma relação de conclusão com tudo o que foi dito anteriormente.

1.2.

O texto analisado nesta atividade foi escrito para ser lido na tela do computador, por um leitor conectado à Internet, o que acarreta características especiais na elaboração de seus parágrafos. No que diz respeito à extensão dos parágrafos, textos veiculados por esse canal de comunicação costumam ser divididos em blocos não muito grandes, para facilitar o processo da leitura. No entanto, por tratar-se de texto informativo, os parágrafos não podem ser pequenos demais, pois isso impediria o aprofundamento necessário das informações a serem apresentadas. Ademais, o fato de os parágrafos terem tamanhos razoavelmente semelhantes sugere ao leitor uma organização balanceada da informação, com dosagem equilibrada de informações principais e auxiliares.

C.E.A.H A PRIMEIRA FASE DO MODERNISMO BRASILEIRO 26/02/2013

CONTEXTO HISTÓRICO DO MODERNISMO

Antes de introduzir considerações sobre o Modernismo, vamos refletir sobre a mudança no conceito de arte que embasou o Modernismo brasileiro através da apresentação de  duas pinturas:  uma obra do Romantismo e uma do Surrealismo (uma das vanguardas que estimulou a culminância do movimento modernista). A partir desta apresentação, podemos notar como o cenário é retratado em cada um dos quadros. Enquanto a primeira, de 1850, se assemelha a uma fotografia, retratando uma paisagem tal como poderia ser, realmente, vista, a segunda, de 1944, transgride o real, apresentando, por exemplo, um elefante com pernas extremamente longas e finas, transportando o topo de uma montanha e um peixe que, saído de uma romã, cospe um tigre.

Figura 1 A Cachoeira de Paulo Afonso, de E. F. Schute

imgres.jpg

Figura 2

Sonho causado pelo voo de uma abelha à volta de uma romã, um segundo antes de acordar, de Salvador Dali


imgres.jpg


Em relação ao segundo quadro, na Europa do início do século XX, o cenário de pós-guerra, estimulou uma arte que dissolvesse as estruturas, rompesse a tradição e superasse o academicismo, o que resultou nos movimentos de Vanguarda.

É importante associar a produção artística do século XX à profunda mudança política, econômica e social. A partir das pinturas, estabeleçe-se, um continuum entre o real, retratado no 1o quadro, e o surreal, no 2o. Percebam como, no início do século XX, novas questões passaram a ser pensadas e materializadas na arte, como o sonho, do quadro de Dali.

VANGUARDAS EUROPEIAS

http://www.youtube.com/watch?v=qzBQycRwZR8

ALGUNS ACONTECIMENTOS HISTÓRICOS MARCANTES

Disputa acirrada pelo domínio de mercados fornecedores e consumidores – Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

Revolução Russa (1917).

Fundação do Partido Nazista Alemão, liderado por Adolf Hitler

(1919).

Fundação dos partidos comunistas de Portugal, Espanha, França e

Itália; Criação do Partido Nacional Fascista na Itália (1921)

Conversão da Rússia em União das Repúblicas Socialistas

Soviéticas (URSS) (1923).

Intensificação do consumo e valorização do modo de vida urbano e

industrial.

Quebra da Bolsa de Valores de Nova York (1929).

BRASIL:

República Velha, Política do café com leite (até 1930). Formação do Partido Comunista Brasileiro (1922).

Vanguardas europeias: movimentos artísticos que questionavam o passado, defendiam o irracionalismo e buscavam novos caminhos (a partir de 1907).

Henry Ford passa a fabricar automóveis padronizados em série (1908) – popularização do automóvel, construção maior de estradas e ruas asfaltadas.

Albert Einsten apresenta a Teoria Geral da Relatividade (1915). Frederick Banting descobre a insulina (1922). Disney produz o primeiro filme de desenhos animados, Mickey

Mouse (1928).

SEMANA DE ARTE MODERNA

http://www.youtube.com/watch?v=zc2AHqe9zrw

O link acima tem uma seleção de cenas da minissérie Um Só Coração da Rede Globo exibida em 2004, sobre a Semana de Arte Moderna de 1922.

MODERNIMO: PRIMEIRA FASE (1922/1930)

http://www.youtube.com/watch?v=WX8aH8PI4Ko

C.E.C.B Tarefas para 28/02/2013

Primeira geração romântica (continuação)

As cores românticas (Comparação entre pintura e literatura por meio de poemas e telas afins)

Relação entre poemas e telas do Romantismo brasileiro

Canção do Tamoio
                                         Gonçalves Dias

I

Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar.

II

Um dia vivemos!
O homem que é forte
Não teme da morte;
Só teme fugir;
No arco que entesa
Tem certa uma presa,
Quer seja tapuia,
Condor ou tapir.

III

O forte, o cobarde
Seus feitos inveja
De o ver na peleja
Garboso e feroz;
E os tímidos velhos
Nos graves concelhos,
Curvadas as frontes,
Escutam-lhe a voz!

IV

Domina, se vive;
Se morre, descansa
Dos seus na lembrança,
Na voz do porvir.
Não cures da vida!
Sê bravo, sê forte!
Não fujas da morte,
Que a morte há de vir!

V

E pois que és meu filho,
Meus brios reveste;
Tamoio nasceste,
Valente serás.
Sê duro guerreiro,
Robusto, fragueiro,
Brasão dos tamoios
Na guerra e na paz.

VI

Teu grito de guerra
Retumbe aos ouvidos
D’imigos transidos
Por vil comoção;
E tremam d’ouvi-lo
Pior que o sibilo
Das setas ligeiras,
Pior que o trovão.

VII

E a mão nessas tabas,
Querendo calados
Os filhos criados
Na lei do terror;
Teu nome lhes diga,
Que a gente inimiga
Talvez não escute
Sem pranto, sem dor!

VIII

Porém se a fortuna,
Traindo teus passos,
Te arroja nos laços
Do inimigo falaz!
Na última hora
Teus feitos memora,
Tranqüilo nos gestos,
Impávido, audaz.

IX

E cai como o tronco
Do raio tocado,
Partido, rojado
Por larga extensão;
Assim morre o forte!
No passo da morte
Triunfa, conquista
Mais alto brasão.

X

As armas ensaia,
Penetra na vida:
Pesada ou querida,
Viver é lutar.
Se o duro combate
Os fracos abate,
Aos fortes, aos bravos,
Só pode exaltar.

Tela:”O último Tamoio” de Rodolfo Amoedo ,1883 http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Ultimo_tamoio_1883.jpg

CANÇÃO DO EXÍLIO

                                        Gonçalves Dias

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho, à noite – Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem que ainda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Tela:”Lagoa Rodrigo de Freitas, Rio de Janeiro” de  Nicola Facchinetti , 1884

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Nicola_Facchinetti_-_Lagoa_Rodrigo_de_Freitas,_Rio_de_Janeiro,_ca._1884.jpg

Enquanto nos poemas, Gonçalves Dias utiliza adjetivos que destacam as qualidades do indígena e da paisagem, na pintura, os artistas se valem das cores e da luz para enfatizar a beleza da paisagem e a bravura do índio, que morre com honra. Ambos trabalham, portanto, os dois princípios básicos da primeira geração romântica: o indianismo e o nacionalismo. 

“O último tamoio”, então, é uma homenagem a essa morte, destacando sua figura principal, o índio, a quem se deve homenagear por ter sido bravo e forte. No Romantismo, por sua vez, vinculado aos princípios clássicos, faz parte do ritual de exaltação de um herói retratá-lo em seu leito de morte. Quanto à paisagem, a ausência do homem e o destaque aos elementos naturais revelam o outro princípio básico do romantismo: o nacionalismo. A maciça repetição dos pronomes de primeira pessoa que enfatizam o amor pela pátria, é substituída, na tela, por uma imagem que apela para o aspecto subjetivo ao retratar uma paisagem idílica e perfeita. Nesse quadro ,Facchinetti diz o mesmo que Gonçalves Dias sem dizer nada, afinal, o artista romântico retrata o que sente, e não o que vê.

C.E.C.B Tarefas para 26/02/2013

A poesia Romântica

Primeira geração: personagens e espaço tipicamente nacionais:

O índio e as belezas naturais

1- Assistir ao vídeo “Rio Antigo - O gigante de pedra” (http://www.youtube.com/watch?v=du-2ehqetDY&feature=player_embedded) para compreender o peso que as belezas naturais do Brasil exerceram na literatura.

2- Ler o texto “O gigante de pedra” de Gonçalves Dias  http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/goncalves-dias/gigante-e-a-pedra.php.

Em seguida, assistir ao vídeo da propaganda “Jhonnie Walker” http://www.youtube.com/watch?v=IY3FoYwAu5U

Ao comparar o texto e o vídeo é possível perceber o quanto ainda é atual o espírito romântico nos dias de hoje.

3- Para refletir como os povos indígenas são representados culturalmente e tratados na sociedade contemporânea, visite o site do Museu do índio http://www.museudoindio.org.br/  e a página do Instituto Ciência hoje http://cienciahoje.uol.com.br/noticias/2011/02/seculos-indigenas

Texto para refletir 20/02/2013

O TEMPO

                     Autor desconhecido

Imagine que você tenha uma conta corrente no banco, e a cada manhã você acorde com um saldo de R$86.400,00. Só que não é permitido transferir o saldo do dia para o dia seguinte. Todas as noites o seu saldo é zerado, mesmo que você não tenha conseguido gastar todo dinheiro durante o dia.

O que você faz ? Você irá gastar cada centavo, é claro!

Todos nós somos clientes deste banco que estamos falando. Se chama TEMPO.

Toda manhã, é creditado por Deus para cada pessoa 86.400 segundos. Toda noite o saldo é debitado, como perda. Não é permitido acumular este saldo para o dia seguinte. Toda manhã, a sua conta é reinicializada, e todas as noites as sobras do dia se evaporam. Não há volta. Você precisa gastar vivendo no presente o seu depósito diário. Invista, então, no que for melhor, essa dádiva de Deus, na saúde, na felicidade e no sucesso. O relógio está correndo. Faça o melhor para o seu dia-a-dia. Lembre-se que Deus vai pedir conta a você de cada segundo dessa conta.

Para você perceber o valor de um ano, pergunte a um estudante que repetiu o ano letivo. Para você perceber o valor de um mês, pergunte para uma mãe que teve um bebê prematuro. Para você perceber o valor de uma semana, pergunte a alguém que espera ansioso por uma viagem. Para você perceber o valor de uma hora, pergunte para alguém que teve insônia a noite e esperou pela manhã. Para você perceber o valor de um minuto, pergunte a uma pessoa que perdeu o trem. Para você perceber o valor de um segundo, pergunte a uma pessoa que conseguiu evitar ou não um acidente. Para você perceber o valor de um milésimo de segundo, pergunte a alguém que ganhou a medalha de ouro em uma olimpíada.

Ontem é história, o amanhã pertence a Deus, hoje é uma dádiva, por isso, é chamado de presente!

Textos para serem usados no quarto bimestre 6/11/2012

PRÉ-MODERNISMO

 

O Pré-Modernismo é uma fase de transição entre o fim do século XIX e o início do século XX, precisamente até a Semana de Arte Moderna de 1922. Trata-se de uma época em que se podem observar os seguintes planos:

a) Formal: conservador, uso das descrições, da linguagem prolixa, das características realistas e naturalistas na prosa.

b) Temático: inovador, partindo de uma postura crítica da realidade brasileira. Na prosa, preocupação em registrar as preocupações sociais da época.

No que concerne ao contexto histórico, esse foi um período de guerras, miséria, desemprego e revoltas populares. Os primeiros anos da República com Floriano Peixoto (1891-1894), foram marcados pelos protestos da oposição que não o aceitavam como presidente e que culminaram em dois conflitos: Revolta Federalista do Rio Grande do Sul e Revolta da Armada. Vale ainda citar outras revoltas que marcaram o período pré-modernista: a Guerra de Canudos, ocorrida nos anos de 1896 e 1897, na Bahia; a Revolta da Vacina, no Rio de Janeiro, em 1903; e a Revolta da Chibata, também no Rio de Janeiro, em 1910.

Na capital fluminense, o século XX tem início com grandes transformações promovidas pela Reforma Pereira Passos. Segundo vários historiadores, um dos maiores problemas urbanos do Rio, a favelização, começou exatamente nesse período.

No fim do século XIX e início do século XX, destacam-se aspectos como a riqueza de poucos em detrimento da miséria de muitos, o desemprego e o empenho de reprodução dos modelos franceses na Belle Époque

 

ALGUNS AUTORES DO PRÉ-MODERNISMO

Graça Aranha: “Canaã” (Espírito Santo)

A obra trata da dificuldade de integração dos personagens alemães Milkau e Lentz, no interior do Espírito Santo. Lentz defende o uso da força. Já Milkau apoia a integração entre os povos, o amor.

Euclides da Cunha: “Os sertões” (sertão da Bahia)

O autor fez a cobertura da Guerra de Canudos, na Bahia, e registrou a resistência dos habitantes às ações do Exército. A obra possui três partes: “A terra”,“O homem” e “A luta”, expressando que “o sertanejo é antes de tudo um forte”.

Lima Barreto: “Triste Fim de Policarpo Quaresma” (subúrbio/interior Rio de Janeiro)

Trata das desigualdades sociais, da crítica à vida social e política da época. O protagonista é Policarpo Quaresma, defensor apaixonado da culturabrasileira.

Monteiro Lobato: “Urupês” (interior de São Paulo)

A obra traz várias histórias que abordam os costumes e a linguagem típica do interior. O ultimo conto, que intitula toda a coletânea, apresenta o Jeca Tatu. Esse personagem se tornou célebre na representação do caboclo preguiçoso.

 

Esse quadro já permite mostrar um panorama das preocupações que nortearam a produção literária pré-modernista. Cada obra aborda uma região do país e um determinado grupo populacional. Os textos, portanto, representam o empenho em desenvolver um novo olhar para o Brasil, mais crítico e sem idealizações.

 

 

1- (Fragmento de Os sertões)

(Antônio Conselheiro) Pregava contra a República; é certo.

O antagonismo era inevitável. Era um derivativo à exacerbação mística; uma variante forçada ao delírio religioso.

Mas não traduzia o mais pálido intuito político: o jagunço é tão inapto para apreender a forma republicana como a monárquico-constitucional.

Ambas lhe são abstrações inacessíveis. É espontaneamente adversário de ambas. Está na fase evolutiva em que só é conceptível o império de um chefe sacerdotal ou guerreiro.

Insistamos sobre esta verdade: a guerra de Canudos foi um refluxo em nossa história. Tivemos, inopinadamente, ressurrecta e em armas em nossa frente, uma sociedade velha, uma sociedade morta, galvanizada por um doudo. 

(…)

Vivendo quatrocentos anos no litoral vastíssimo, em que palejam reflexos da vida civilizada, tivemos de improviso, como herança inesperada, a República. Ascendemos, de chofre, arrebatados na caudal dos ideais modernos, deixando na penumbra secular em que jazem, no âmago do país, um terço da nossa gente. Iludidos por uma civilização de empréstimos; respigando, em faina cega de copistas, tudo o que de melhor existe nos códigos orgânicos de outras nações, tornamos, revolucionariamente, fugindo ao transigir mais ligeiro com as exigências da nossa própria nacionalidade, mais fundo o contraste entre o nosso modo de viver e o daqueles rudes patrícios mais estrangeiros nesta terra do que os imigrantes da Europa. Porque não no-los separa um mar, separam-no-los três séculos…

Euclides da Cunha

 

2- (Fragmento do primeiro capítulo de Triste fim de Policarpo Quaresma.)

Como de hábito, Policarpo Quaresma, mais conhecido por Major Quaresma, bateu em casa às quatro e quinze da tarde. Havia mais de vinte anos que isso acontecia. Saindo do Arsenal de Guerra, onde era subsecretário, bongava pelas confeitarias algumas frutas, comprava um queijo, às vezes, e sempre o pão da padaria francesa.

Não gastava nesses passos nem mesmo uma hora, de forma que, às três e quarenta, por ai assim, tomava o bonde, sem erro de um minuto, ia pisar a soleira da porta de sua casa, numa rua afastada de São Januário, bem exatamente às quatro e quinze, como se fosse a aparição de um astro, um eclipse, enfim um fenômeno matematicamente determinado, previsto e predito.

A vizinhança já lhe conhecia os hábitos e tanto que, na casa do Capitão Cláudio, onde era costume jantar-se aí pelas quatro e meia, logo que o viam passar, a dona gritava à criada: “Alice, olha que são horas; o Major Quaresma já passou.”

 (…)

Estava num aposento vasto, com janelas para uma rua lateral, e todo ele era forrado de estantes de ferro.

Havia perto de dez, com quatro prateleiras, fora as pequenas com os livros de maior tomo. Quem examinasse vagarosamente aquela grande coleção de livros havia de espantar-se ao perceber o espírito que presidia a sua reunião.

Na ficção, havia unicamente autores nacionais ou tidos como tais: o Bento Teixeira, da Prosopopéia; o Gregório de Matos, o Basílio da Gama, o Santa Rita Durão, o José de Alencar (todo), o Macedo, o Gonçalves Dias (todo), além de muitos outros. Podia-se afiançar que nem um dos autores nacionais ou nacionalizados de oitenta ora lá faltava nas estantes do major.

(…) 

(…)A razão tinha que ser encontrada numa disposição particular de seu espírito, no forte sentimento que guiava sua vida. Policarpo era patriota. Desde moço, aí pelos vinte anos, o amor da Pátria tomou-o todo inteiro. Não fora o amor comum, palrador e vazio; fora um sentimento sério, grave e absorvente. Nada de ambições políticas ou administrativas; o que Quaresma pensou, ou melhor: o que o patriotismo o fez pensar, foi num conhecimento inteiro do Brasil, levando-o a meditações sobre os seus recursos, para depois então apontar os remédios, as medidas progressivas, com pleno conhecimento de causa.

Não se sabia bem onde nascera, mas não fora decerto em São Paulo, nem no Rio Grande do Sul, nem no Pará. Errava quem quisesse encontrar nele qualquer regionalismo; Quaresma era antes de tudo brasileiro. Não tinha predileção por esta ou aquela parte de seu país, tanto assim que aquilo que o fazia vibrar de paixão não eram só os pampas do Sul com o seu gado, não era o café de São Paulo, não eram o ouro e os diamantes de Minas, não era a beleza da Guanabara, não era a altura da Paulo Afonso, não era o estro de Gonçalves Dias ou o ímpeto de Andrade Neves - era tudo isso junto, fundido, reunido, sob a bandeira estrelada do Cruzeiro.

Logo aos dezoito anos quis fazer-se militar; mas a junta de saúde julgou-o incapaz. Desgostou-se, sofreu, mas não maldisse a Pátria. O ministério era liberal, ele se fez conservador e continuou mais do que nunca a amar a “terra que o viu nascer”. Impossibilitado de evoluir-se sob os dourados do exército, procurou a administração e dos seus ramos escolheu o militar.

Era onde estava bem. No meio de soldados, de canhões, de veteranos, de papelada inçada de quilos de pólvora, de nomes de fuzis e termos técnicos de artilharia, aspirava diariamente aquele hálito de guerra, de bravura, de vitória, de triunfo, que é bem o hálito da Pátria.

Lima Barreto

 

3- (Fragmento de Zé Brasil)

I

Zé Brasil era um pobre coitado. Nasceu e sempre viveu em casebres de sapé e barro, desses de chão batido e sem mobília nenhuma – só a mesa encardida, o banco duro, o mocho de três pernas, uns caixões, as cuias… Nem cama tinha. Zé Brasil sempre dormiu em esteiras de tábua. Que mais na casa? A espingardinha, o pote d’água, o caco de sela, o rabo de tatu, a arca, o facão, um santinho na parede. Livros, só folhinhas – para ver as luas e se vai chover ou não, e aquele livrinho do Fontoura com a história do Jeca Tatu.

-Coitado deste Jeca! dizia Zé Brasil, olhando para aquelas figuras. Tal qual eu. Tudo que ele tinha, eu também tenho. A mesma opilação, a mesma maleita, a mesma miséria e até o mesmo cachorrinho. Pois não é que meu cachorro também se chama Jolí?…

II

A vida de Zé Brasil era a mais simples. Levantar de madrugada, tomar um cafezinho ralo (“escolha” com rapadura), com farinha de milho (quando tinha) e ir para a roça pegar no cabo da enxada. O almoço ele o comia lá mesmo, levado pela mulher; arroz com feijão e farinha de mandioca, às vezes um torresmo ou um pedacinho de carne seca para enfeitar. Depois cabo da enxada outra vez, até à hora do café do meio-dia. E novamente a enxada, quando não a foice ou o machado. A luta com a terra sempre foi brava. O mato não pára nunca de crescer, e é preciso ir derrubando as capoeiras e capoeirões porque não há o que se estrague tão depressa como as terras de plantação.

Na frente da casa, o terreirinho, o mastro de Santo Antônio. Nos fundos, o chiqueirinho com um capadete engordado, a árvore onde dormem as galinhas, e a “horta” – umas latas velhas num girauzinho, com um pé de cebola, outro de arruda e mais remédios – hortelã, cidreira, etc. no girau, por causa da formiga.

-Ah, estas formigas me matam! Dizia o Zé com cara de desânimo. Comem tudo que a gente planta.

E se alguém da cidade, desses que não entendem de nada desta vida, vinha com histórias de “matar formiga”, Zé dizia: “Matar formiga!… Elas é que matam a gente. Isso de matar formiga é só para os ricos, e muito ricos. A formicida está pela hora da morte – e cada vez pior, mais falsificada. E que me adianta matar um formigueiro aqui neste sítio, se há tantos formigueiros nos vizinhos? Formiga vem de longe. Já vi um olheiro que ia sair a um quilômetro de distancia. Suponha que eu vendo a alma, compro uma lata de formicida e mato aquele formigueiro ali do pastinho. Que adianta? As formigas do Chico Vira, que é o meu vizinho deste lado, vem alegrinhas visitar as minhas plantas”.

III

A gente da cidade – como são cegas as gentes das cidades!… Esses doutores, esses escrevedores nos jornais, esses deputados, paravam ali e era só crítica: vadio, indolente, sem ambição, imprestável … não havia o que não dissessem do Zé Brasil. Mas ninguém punha atenção nas doenças que derreavam aquele pobre homem – opilação, sezões, quanta verminose há, malária. E cadê doutor? Cadê remédio? Cadê jeito? O jeito era sempre o mesmo: sofrer sem um gemido e ir trabalhando doente mesmo, até não agüentar mais e cair como cavalo que afrouxa. E morrer na velha esteira – e feliz se houver por ali alguma rede em que o corpo vá para o cemitério, senão vai amarrado com cipó.

-Mas você morre, Zé, e sua alma vai para o céu, disse um dia o padre – e Zé duvidou.Está aí uma coisa que só vendo! Minha idéia é que nem deixam minha alma entrar no céu. Tocam ela de lá, como aqui na vida o coronel Tatuíra já me tocou das terras dele.

-Por que, Zé?

IV

Eu era “agregado” na fazenda do Taquaral. O coronel me deu lá uma grota, fiz minha casinha, derrubei mato, plantei milho e feijão.

-De meias?

-Sim. Metade para o coronel, metade para mim.

-Mas isso dá, Zé?

-Dá para a gente ir morrendo de fome pelo caminho da vida – a gente que trabalha e planta. Para o dono da terra é o melhor negócio do mundo. Ele não faz nada, de nada, de nada. Não fornece nem uma foice, nem um vidrinho de quina para a sezão – mas leva metade da colheita, e metade bem medida – uma metade gorda; a metade que fica com a gente é magra, minguada… E a gente tem de viver com aquilo um ano inteiro, até que chegue tempo de outra colheita.

Monteiro Lobato

 

 (Fragmentos de Canaã)

A TRAGÉDIA DE MARIA

E o que tinha de acontecer, acontecia … No meio do cafezal que estava a limpar, Maria, que já desde a véspera vinha sofrendo, sentiu repentinamente uma dor aguda nas entranhas, como de uma violenta punhalada. Caiu pesada no chão, o corpo se lhe retorceu todo e o rosto desmaiado desfigurou-se numa contorção medonha. A dor fora viva e passageira e logo que a rapariga voltou a si, assaltada por um grande terror, o seu primeiro movimento foi de se recolher a casa e aí, no abrigo doméstico, esperar o desenlace da crise. Teve, porém, medo de afrontar a ira dos patrões, que dia e noite ameaçavam despedi-Ia, para se furtarem ao incômodo   do tratamento. ……………………………………………………………………………………………………………………………

Tomada de medo, abandonou o serviço e, afastando-se o mais possível da casa, deixou o cafezal e aventurou-se para o lado do rio, onde era mais deserto. Aí, no terreno inculto e bravio, as únicas árvores que havia eram esparsos cajueiros muito derreados, esgalhando-se pelo chão. Maria sentou-se debaixo duma dessas árvores que naquela época estavam em flor. ……………………………………………………………………………………………………………………………

Em torno fungavam os porcos, remexendo as folhas secas do cajueiro, chegando mesmo alguns mais atrevidos, mais vorazes, a lamber afoitamente o chão … Maria, horrorizada, queria afugentá-Ios, mas as dores a retomavam, imperiosas; nem mesmo tinha forças para um grito agudo, e só podia gemer estrebuchando numa mistura de sofrimento e de gozo, que a estimulava estranhamente … E os porcos persistiam sinistros, ameaçadores … Subitamente, ela caiu extenuada, largando a árvore … Um vagido de criança misturou-se aos roncos dos animais … A mulher fez um cansado gesto para apanhar o filho, mas exangue, débil, o braço morreu-lhe sobre o corpo. Uma vertigem turbou-lhe a visão, enfraqueceu-lhe os ouvidos, e numa volúpía de bem-estar parecia deliciosamente suspensa nos ares, longe da Terra, longe do sofrimento, ouvindo no arfar dos porcos o resfolegar longínquo e adormecido do mar … E os animais sedentos enchafurdavam-se, guinchando, atropelando-se no sangue que corria, Um novo gemido saiu do peito de Maria, despertando-a, em sobressalto. Os porcos afastaram-se espantados, e ela, meio consciente, contorceu-se, mirou atônita a criança, que vagia estrangulada.

Graça Aranha

 

 

O Morcego  

Augusto dos Anjos

Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.

Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:

Na bruta ardência orgânica da sede,

Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

 

"Vou mandar levantar outra parede…"

- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho

E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,

Circularmente sobre minha rede!

 

Pego de um pau. Esforços faço. Chego

A tocá-lo. Minh’alma se concentra.

Que ventre produziu tão feio parto?!

 

A Consciência Humana é este morcego!

Por mais que a gente faça, à noite, ele entra

Imperceptivelmente em nosso quarto!

Atividade de literatura segundo bimestre

Data da entrega e apresentação: C.E.A.H. 15/06  C.E.C.B 14/06

- O trabalho deverá ser feito em grupos de 4 alunos.

- Escolher um conto de Machado de Assis (exceto; “O Alienista”). Vocês poderão encontrar a obra completa no link abaixo.

http://machado.mec.gov.br/arquivos/pdf/contos/macn009.pdf

- Ler o conto escolhido, identificando os seguintes aspectos:

1) Qual a questão tematizada?

2) Que imagem da época é construída por Machado no conto selecionado?

3) Que elementos presentes no conto, revelam que a abordagem do tema tratado na narrativa é realista e que aspectos são Machadianos?

- Responder essas perguntas em uma folha de papel almaço.

-Apresentar a análise oralmente, para a sala, resumindo o conto escolhido e explicando, a partir da leitura de trechos, previamente selecionados, por que é possível afirmar que a abordagem adotada por Machado é realista. Lembrem de citar pontos em que o autor se afasta do Realismo e afirma.

C.E.A.H. Tarefa a ser entregue na sexta-feira 2/3/2012 pelos alunos das turmas 2007,2008, 2009 

Pesquise e transcreva para seu caderno as principais figuras de linguagem. Explique cada uma  e dê um  exemplo.

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